Eu não sigo nenhuma religião e costumo definir-me como "agnóstica teísta": acredito em Deus, mas reservo-me o direito de falar diretamente ao Chefão, sem necessidade de intermediários neste plano (padres, gurus, etc.) ou naquele (anjos, santos, etc.) tanto para dirigir-me a Ele, quanto para receber suas mensagens. E para quem tem olhos para ver e ouvidos para ouvir, Ele nos fala o tempo todo, todos os dias.
Como eu disse, "reservo-me o direito", mas parece que nem todos seguem meu lema de viva e deixe viver. Não pertencer a nenhuma seita ou religião - e ainda por cima dizer isso em alto e bom som - parece que incomoda, e como resultado sempre há alguém disposto a mostrar-me o caminho da salvação, ou ensinar-me como livrar-me da danação eterna. E - via de regra - esses sábios ensinamentos estão dentro de uma Bíblia, que a pessoa mais que depressa abre e começa a folhear para provar sem sobra de dúvida os fragmentos dos versículos que ela me recita de cor.
Ora, caros amigos, eu fui criada em um colégio católico, sou de uma família catolicíssima, cujos membros jamais perderam uma novena, missa de sexta-feira ou de domingo, que jamais perderam lugar na fila de comunhão. Cercada de beatos, freiras e coroinhas, fiz catecismo, primeira comunhão, crisma e até me casei - uma das vezes - na igreja. Nesse mesmo colégio fui alfabetizada, já tive diversas bíblias e - por conseguinte - estou careca de saber seu conteúdo.
O que eu também sei - e me corrijam se eu estiver errada - é que a Bíblia tem que ser interpretada, não está tudo ali preto no branco. E sendo assim, cada um interpreta ou torce como bem entender para provar o que quiser. Seja para me provar que fumando eu não só destruo meus pulmões como também meu lugarzinho ao lado do Senhor, ou que cortando meu cabelo também estou cortando meu atalho para o Paraíso.
Cada um tem o direito de acreditar no que escolhe crer, e eu não tiro de ninguém o direito de usar seu livre arbítrio, cheguei uma vez a discutir com um desses bons samaritanos que dedicam-se a salvar almas desgarradas nos finais de semana, e após dizer-lhe repetidas vezes que não queria ouvir o que ele tinha para me falar, perdi de vez a paciência e disse-lhe que se eu fosse para o inferno o problema era meu, e que a alma era minha então ele podia ir embora sem problemas e sem dor na consciência.
Eu não concordo com a postura de quem carrega a Bíblia debaixo do braço para sacá-la como quem saca um revólver para aniquilar com suas citações de capítulos e versículos qualquer manifestação contrária à sua própria crença; também desconfio de quem usa a Bíblia como desodorante: protege contra mau-olhado e opiniões contrárias se carregada 24 horas por dia debaixo do braço, mas que só é aberta para apontar o que os outros fazem de "errado", já que quem usa a bíblia desodorante é como quem usa qualquer outra marca de desodorante: sente o cheiro que vem do sovaco alheio mas pode feder como carniça que nem nota, já que acha que já está "salvo".
Então eu entendo que esse mundo seria bem melhor para os livre-pensantes se os seguidores dessa ou daquela seita nos deixassem em paz e respeitassem nosso direito de "não ser" pios seguidores da religião que professam. Pelo menos no meu caso, sou agnóstica não por ignorância, mas, antes, por opção.
Zailda Coirano
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